O homem que sabia perder no pôquer
Luis Fernando Verissimo
O melhor jogo de pôquer de Las Vegas não é em nenhum dos grandes hotéis ou cassinos, é o do Manny, que durante o dia é salva-vidas na piscina do MGM Grand e de noite recebe os grandes jogadores em sua casa. Os jogos duram a noite inteira. Manny nunca dorme. Os banhistas do MGM Grand não sabem o perigo que correm. Na roda que se reúne na casa do Manny para jogar, não há dúvidas de que no dia em que mergulhar na piscina para salvar alguém, Manny não voltará à tona.
Meu nome, por sinal, é Jack, Jack o Charuto, porque ninguém nunca me viu sem um charuto na boca, salvo quando me tiraram da barriga da minha mãe, e mesmo assim o obstetra não tem certeza. Sou, obviamente, um personagem fictício do Verissimo. Sempre que estou em Las Vegas vou jogar na casa do Manny. Qualquer um pode entrar na casa do Manny, basta saber a senha ("É aqui?") e/ou pagar quinhentos dólares. Mas não recomendo que você entre no jogo se não tiver dinheiro, muito dinheiro. Poços de petróleo e/ou tias ricas ajudam. E/ou muita coragem. Já vi gente sair carregada da mesa do Manny, depois de perder toda a sua fortuna na perigosa presunção de que a sua trinca era imbatível.
A trinca, qualquer jogador de pôquer lhe dirá, é a mais cruel das mãos. Já matou muita gente, do coração ou de causas menos convencionais como tiro na testa. Nos casos de infarto, o Manny tem um amigo médico de plantão para testar se o cara não está fingindo. Às vezes o cara morre do teste.
Não preciso dizer que o pôquer do Manny é frequentado por alguns tipos estranhos. Como o maior ganhador da roda, o Fred. Lucky Fred. Fred Sortudo. Nunca vi ninguém tão sortudo, e tão triste. Fred Sortudo não é apenas triste. É um amargurado. Quanto mais ganha, mais triste e amargurado fica. E certa manhã, depois que todos os outros jogadores já tinham ido embora e o Manny se preparava para fechar a casa e ir trabalhar na piscina do hotel, o Fred Sortudo me contou a razão da sua amargura. Tinha sido o maior ganhador da noite, outra vez, e eu perguntei se ele tinha idéia de quantas rodadas ganhara.
De quantas vezes arrastara as fichas da mesa para a sua pilha, com aquela expressão de sofrimento no rosto. Que porcentagem? Trinta, quarenta, sessenta por cento das vezes? Ele me olhou durante algum tempo, como se quisesse chegar a alguma conclusão a meu respeito, e decidiu que podia me confiar seu segredo. Era a primeira vez que o contaria para alguém. Talvez concluíra que, sendo fictício, eu era de confiança. Perguntou: sabe quantas vezes eu tive a melhor mão da mesa? E ele mesmo respondeu: todas. Como, todas? Perguntei. Todas. Cem por cento das vezes. Sabe aquele seu full-hand? Eu poderia ter batido aquilo. Tinha um straight flush. E por que não bateu? Perguntei, tirando o charuto da boca, coisa que só faço nas refeições, para beber o bourbon, e em casos extremos de espanto. Aí é que está, disse ele, as bochechas caídas como as de um cachorro.
As bochechas mais tristes que eu conheço. Aí é que está. Você se dá conta do que aconteceria se eu ganhasse todas as rodadas, cem por cento das rodadas, sempre? Você estaria milionário, disse eu. Não! gritou o Fred Sortudo. Você não vê? Eu não entraria mais em nenhuma roda de pôquer, neste ou em qualquer outro hemisfério. Ninguém ia querer jogar comigo. Por isso eu preciso perder de vez em quando. Sei que tenho o jogo melhor, mas não aposto. Passo. Não sei quantas vezes atirei um royal straight flush com ás na ponta no bagaço e disse "Estou fora". Ou desmanchei um four de reis e pedi três cartas, só para não ganhar. Porque eu sempre tenho a melhor mão. Desde que comecei a jogar tem sido assim. Sempre. É terrível.
Foi a minha vez de ficar olhando para o Fred Sortudo, tentando decidir se ele estava me gozando ou não. Aquelas bochechas trágicas não pareciam ser as de um gozador. Ninguém tem sorte assim, disse eu, finalmente. Isso não é normal. Exato! Gritou ele. Não é normal. É um sinal de alguma coisa que eu não identifico. Uma bênção que eu não sei de onde vem, e o que eu fiz para merecer. É um mistério, uma anomalia, uma danação. Entende? Ter sorte assim é pior do que ter azar! Se eu não ganhasse nunca ou ganhasse pouco seria igual a milhares de outros, igual ao resto da humanidade. Porque ter azar é normal. Ganhar sempre me coloca em outro plano - que eu não sei qual é. Só sei que não é normal.
Perco de propósito para parecer normal. Para recusar essa dádiva que eu não quero e não entendo, entende? Perguntei se ele tinha a mesma sorte em outros tipos de jogo. Não, só no pôquer. Sentia que tinha uma missão na vida que ainda não lhe fora revelada, que fora abençoado por alguma razão. Mas fosse qual fosse sua missão, certamente não era a de ganhar sempre no pôquer. Mas o negócio dele era o pôquer. Vivia do pôquer. E para continuar ganhando no pôquer, não podia ter sorte demais. Para poder viver do pôquer, precisava perder no pôquer. E também havia a questão do orgulho profissional. Receber sempre as melhores cartas significa que eu não sei se sou bom no pôquer ou não, disse Fred. Minha única habilidade provada no pôquer não é saber ganhar, é saber fingir que perdi.
Naquela noite, teve uma rodada em que ficamos, outra vez, só eu contra o Fred Sortudo. Eu com um full-hand, par e trinca, sabendo que, se a história que me contara naquela manhã fosse verdadeira, o Fred tinha um jogo mais alto na mão. Sempre tinha um jogo mais alto na mão. A questão era o que pretendia fazer com ele. Arrisquei e apostei todas as minhas fichas. Fred Sortudo não sorriu, exatamente, mas fez uma boa tentativa. Atirou suas cartas na mesa e disse "Leva". Não resisti. Me debrucei por cima da mesa para virar as cartas dele e descobrir se o seu jogo era mesmo melhor do que o meu e se a sua história era verdadeira. Mas ele tapou as cinco cartas com a mão e me impediu de vê-las. Nunca saberei se a história de Fred Sortudo era verdadeira. Sua tristeza era. Aparecem uns tipos bem estranhos no pôquer do Manny.
Submerso
Da série “Poesia numa hora destas?!”
Isto é só a ponta de um iceberg submerso. O verdadeiro poema está embaixo deste verso.
Domingo, 26 de janeiro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.